O Homem em busca de um sentido
A leitura de O Homem em Busca de um Sentido fez-me refletir profundamente sobre a realidade que vivi com o Ricardo em contexto hospitalar. As ideias apresentadas por Viktor Frankl fizeram-me compreender que, mesmo perante o sofrimento, é possível encontrar um propósito que nos permita continuar a lutar. Apesar de todos os diagnósticos e das dificuldades que enfrentámos, consegui encontrar um sentido para aquilo que estávamos a viver. Percebi que a possibilidade de escolhermos a nossa atitude perante qualquer circunstância, de decidirmos como agir e como enfrentar os desafios, é uma das maiores expressões da liberdade humana e aquilo que verdadeiramente nos distingue.
O sentido que encontrei era claro: ajudar o Ricardo a recuperar do enfarte e a vencer o cancro. Queria, e continuo a querer, que ele recupere plenamente. Toda a nossa vida passou a girar em torno desse objetivo. Mais do que encontrar esse sentido para mim, consegui também transmiti-lo a ele. A fé no futuro, a esperança e a coragem tornaram-se elementos fundamentais do nosso percurso e ajudaram-nos a enfrentar cada tratamento, cada dificuldade e cada desafio com determinação e confiança.
Uma das frases que mais me marcou no livro foi a ideia de que “aquele que tem uma razão para viver pode suportar quase qualquer coisa”. Ao olhar para tudo aquilo que ultrapassámos, reconheço a verdade destas palavras. Foi o sentido que atribuímos à nossa luta que nos permitiu continuar sempre de cabeça erguida, mesmo nos momentos mais difíceis.
Ressignificámos todo o processo da doença para lhe dar um significado que nos permitisse avançar. Os tratamentos, os cuidados diários, a alimentação, a higiene, as terapias e todas as exigências do quotidiano continuavam presentes, mas deixaram de ser apenas um conjunto de tarefas pesadas. Ao atribuir-lhes um propósito, tudo passou a fazer parte de uma missão maior. Esse sentido tornava cada esforço mais leve e dava-nos forças para continuar a lutar. A grande questão que me acompanhava era: o que espera a vida de nós perante aquilo que aconteceu ao Ricardo?
Frankl defende que cada pessoa possui uma vocação e uma missão específicas na vida. Enquanto mãe, senti que a minha missão era criar todas as condições possíveis para que o Ricardo pudesse ultrapassar a doença e as suas sequelas da melhor forma possível. Compreendi que não bastava perguntar o que esperava da vida; era necessário responder àquilo que a vida me estava a pedir naquele momento, assumindo a responsabilidade pela situação e agindo em conformidade.
Ao longo deste percurso, percebi também que quanto mais uma mãe se entrega ao amor por um filho e se dedica a uma causa maior do que ela própria, mais cresce enquanto ser humano. Esta experiência tornou-me mais forte, mais consciente e mais humana.
Outra das grandes lições que retirei desta obra é que o sentido é possível apesar do sofrimento. O sentido da vida pode mudar ao longo do tempo, mas nunca desaparece. Mesmo perante situações que parecem irremediáveis, quando não podemos mudar aquilo que nos acontece, continuamos a poder escolher a forma como respondemos. Podemos elevar-nos acima das circunstâncias e crescer através delas.
Perante o sofrimento vivido, não podíamos alterar a realidade da doença, mas podíamos escolher a atitude com que a enfrentávamos. Essa escolha permitiu-nos transformar uma experiência profundamente dolorosa numa oportunidade de crescimento, aprendizagem e superação. Hoje acredito que, embora nunca desejasse passar por tudo o que vivemos, o crescimento humano, emocional e espiritual que alcançámos dificilmente teria sido possível sem essa experiência.
Em síntese, a mensagem central que retirei deste livro é que a atitude que cada pessoa assume perante os desafios e oportunidades da vida é determinante. Uma atitude positiva ajuda-nos a resistir ao sofrimento, às desilusões e às dificuldades, permitindo-nos manter a esperança e encontrar forças para continuar. Pelo contrário, uma atitude negativa tende a intensificar a dor e a fragilizar a nossa capacidade de enfrentar os problemas. Por isso, acredito que as nossas escolhas devem ser ativas e conscientes. Mesmo quando não podemos escolher aquilo que nos acontece, podemos sempre escolher a forma como respondemos, e é nessa escolha que reside a verdadeira liberdade humana.





